LIBERDADE DE IMPRENSA: O ARQUÉTIPO LIBERAL E AS ÚLTIMAS TRÊS DÉCADAS NO PORTUGAL ACTUAL

José Augusto dos Santos Alves

Professor Agregado

Centro de História da Cultura da Universidade Nova de Lisboa

 

O princípio da liberdade de imprensa é, no liberalismo, um dos mais essenciais[1], do mesmo modo que a liberdade de opinião, a liberdade religiosa, o direito de oposição e o direito de crítica.

Entre o liberalismo e a liberdade de imprensa existem, evidentemente, correlações estreitas[2], tanto na teoria como na prática, e, independentemente das relações ambíguas entre poder e imprensa, esta transmuda-se em contra-poder, ilação que claramente ressalta da actividade dos periódicos liberais[3], arquétipo de estudo nesta comunicação.

Seguindo o implícito ao raciocínio dos seus redactores, a verdade não pode ser detida por qualquer poder constituinte, pois ela pertence somente aos constituintes, porque é imanente à razão individual. O que funda o espírito público é a livre deliberação dos cidadãos esclarecidos. Deste modo, interditar a palavra, ou um escrito, é impedir a razão de caminhar, além de que a livre circulação da palavra escrita tende à política justa.

Se a liberdade civil é o inextrincável das outras liberdades, a liberdade de imprensa é nuclear para a sua realização, “ponto arquimédico” da mudança, do saber e do poder. O conceito de liberdade de imprensa surge, assim, nos periódicos liberais como motor de transformação que vai directamente ao cerne da liberdade, fundamento de toda a libertação e progresso[4].

 

Nesta acepção, abordando a questão portuguesa, e tomando como referente os periodistas liberais do vintismo, podemos inquirir se os jornalistas do pós-25 de Abril pensam de igual modo? Dirão estes o que pensam e desejam, ou o que podem? Os mesmos princípios terão a mesma aplicação? É possível falar em liberdade de imprensa, sem falar em liberdade de recepção? Face às supostas distorções, manipulações, censuras, desinformação, deformação, e sem ignorar que o arquétipo e os seus reflexos nos últimos trinta anos são certamente uma questão polémica, pode perguntar-se se tem sentido, nos dias de hoje, a recorrência ao arquétipo liberal?

 

A meu ver, esta revisitação, independentemente das mutações estruturais e epistemológicas, tem razão de ser. Com efeito, este salto na história de quase dois séculos justifica-se para questionar a sobrevivência ou a falência dos princípios do arquétipo liberal que continua a ter, do ponto de vista formal, um valor inquestionável.

 

Pelo menos assim o entendia um elevado número de jornalistas nos anos quentes da Revolução de Abril, sobretudo em 1975, na luta que se travava pelo poder entre as diferentes forças políticas. Na verdade, a questão da liberdade imprensa surge, neste período, com enorme vigor no conjunto da imprensa portuguesa.

Se em 1974, o escritor Urbano Tavares Rodrigues, abordando os momentos iniciais da Revolução e o exercício do poder pela Junta de Salvação Nacional, num contexto de “grande exigência colectiva de liberdade e democracia”, afirmava: “Não será aquilo que a esquerda portuguesa desejaria (…), é, pelo menos, a palavra honrada de quem, devemos acreditá-lo, lhe garante o direito de expressão”[5], já o chefe da Junta de Salvação Nacional colocando a tónica na missão da imprensa, declarava:

 

“[A] imprensa tem uma alta missão a desempenhar, pois compete-lhe colaborar no sentido de que possam ser respeitadas em toda a sua plenitude novas formas de vida. Ainda sobre este assunto, quero referir-me a pontos fundamentais (…). Todavia, há um aspecto que desejo, desde já, salientar: é a alta responsabilidade que a imprensa assume (…). A direcção de cada jornal deve organizar-se internamente por meio de hierarquias que assegurem a prática de uma informação livre, é certo, mas essencialmente responsável. É preciso que os lugares de chefia dentro dos jornais sejam dados a pessoas da mais alta responsabilidade…”[6].

 

Aparentemente, a autoridade saída do acto revolucionário endereça um ínvio recado aos jornais e aos jornalistas sobre o modo como devem organizar-se internamente, qual deve ser o perfil dos seus responsáveis, numa manifestação de ingerência interna incompatível com o processo abrilista e a liberdade de imprensa. Por outras palavras, o poder político/militar parece desconhecer que este é um problema interno, que apenas aos jornais e jornalistas diz respeito, e coloca-se, contra todos os que estão crentes e ciosos de uma liberdade de imprensa sem coacções e sem tutelas, na posição paternalista da concessão condicionada de um inalienável direito, sujeito a prémio ou a castigo.

Eventualmente estimulada pelas palavras ambíguas, do então chefe da Junta de Salvação Nacional, a redacção do vespertino A Capital exigia “após deliberação unânime, a demissão da direcção do jornal e a nomeação do corpo redactorial para a direcção interina, comprometendo-se a realizar uma informação independente aberta a todas as correntes de opinião e não vinculado a qualquer tendência política”[7]. Assinale-se que dois directores eram próceres do salazarismo, um ex-ministro e um ex-professor de uma instituição de ensino superior, especialmente vocacionada para a formação de quadros do colonialismo.

Como se verifica, as intenções eram puras, penetradas pela dimensão ética dos fundamentos da liberdade de imprensa.

É no âmbito de espírito idêntico que devemos olhar a atitude dos jornalistas do Diário de Lisboa que “decidiram pôr em prática a independência da redacção frente à administração (…) no sentido duma informação objectiva, independente e pluralista”[8], assim como a decisão de uma assembleia magna dos jornalistas que aprova uma proposta na qual se declara ser intolerável “doravante qualquer censura interna, exigindo para o efeito uma declaração formal e pública das diversas empresas”[9]. A mesma significação tem a greve de todos os trabalhadores de O Século, em virtude da violência cometida pela administração que impede a publicação de um comunicado de uma reunião de trabalhadores, administração que “já antes tinha desrespeitado um compromisso (…), publicando, sem destaque e censurada, a notícia da anterior reunião geral”[10].

Conforme se constata, os desígnios destes epígonos dos periodistas de há cerca de duzentos anos deixam ver os mesmos princípios e valores dos seus antepassados, como parece mostrar o editorial do República, quando, citando o pedagogo António Sérgio, subscreve: “‘Poderia dizer-se que as nossas lutas são ainda episódios da Revolução Francesa’ (…). Os princípios podem não ser imutáveis, mas o objectivo é que é permanente”[11].

Se é possível uma leitura sobre a temática que nesta comunicação se aborda, a liberdade de imprensa é um princípio irredutível, assente nos valores dos seus arcanos, inventores da liberdade, os liberais, mas a imprensa pós-25 de Abril reflecte leituras diferentes, senão opostas, da prática a seguir:

 

“A defesa mais eficaz de qualquer sistema, político, social, religioso, económico, está na livre ‘prática da crítica’. Ninguém se pode considerar infalível e qualquer comunidade só será sólida na medida em que tenha a participação de todos, concordantes ou discordantes (…). O pior dos males do totalitarismo, qualquer que seja a sua cor, é o abafarete da crítica, a mesa censória posta em primeiro plano, venha ela de uma repartição que tudo vê e espiolha, seja montada com a manipulação sistemática de quantas vozes poderiam discordar. Impedindo a prática da crítica, nem se pensa na autocrítica porque o conceito de infalibilidade e impunidade abebera todas as decisões dos mandantes. Substituir a uma censura ou exame prévio, o monolitismo da informação e entravando a crítica com ameaças de multas e suspensões administrativas, ao arbítrio do mesmo mandante e sem a intervenção de um juiz competente, é continuar o divisionismo de uma nação, pôr cidadãos contra cidadãos, tratando uns de filhos e outros de enteados. Nem interessa que o censor seja Moreira Baptista[12] e o manipulador da informação, distribuidor de multas e aplicações de suspensões Correia Jesuíno[13] (…). A revolução é de todos nós e só se pode ir erguendo na crítica e na autocrítica livres”[14].

 

Reflexo do combate que se travava entre poder e imprensa, este artigo tem o mérito de pôr em relevo a complexidade de um jogo interactivo entre actores com legitimidades diferentes, políticos e jornalistas, um processo pelo qual os actores sociais exprimem e confrontam simbolicamente opiniões políticas num espaço público regenerado. Independentemente da comunicação política tender a desinformar e a manipular os cidadãos, a substituir a informação pela sedução, a transformar o espaço público em “imagem pública” e mesmo a preparar o aparecimento de uma sociedade totalitária, sapando os fundamentos da representação, existia, neste ano quente de 1975, para além disso, uma inabalável memória do passado recente que a imprensa reflectia com intensidade:

 

“A clausura implacável de meio século deixou marcas e cicatrizes nos corpos e nas mentalidades das gentes. Não se constrói uma sociedade democrática com tirar dirigentes e pôr outros no seu lugar (…). Saídos da noite escura, como que esfregamos ainda os olhos e é aos tropeções que buscamos caminho (…). Saímos de uma luta contra o totalitarismo (…) calejados dos cortes, das ameaças, dos encontrões recebidos. O açaimo é-[nos] (…) familiar, mas nunca o [suportámos] sem protesto (…). Nem há socialismo sem democracia, sem liberdade de opinião e de expressão. Quando só um pensamento é consentido ou o pensamento da comunidade inteira é manipulado artificialmente, entra-se no domínio da hipocrisia, do totalitarismo. Daí o considerarmos o pluralismo das opiniões a riqueza de uma sociedade, fonte do seu progresso e prova da sua força democrática”[15].

 

De igual modo, devemos ter presente, nesta conjuntura, a utilização de variações da reescrita, fazendo prevalecer no discurso, não só uma «mística», mas também o reconhecimento da “irrazoabilidade” do exercício do poder.

Desta maneira, e de uma forma progressiva, os periodistas pós-Abril afirmam a marca do trabalho (do periodista), da reflexão e da consciência que têm da censura e das limitações que sobre eles imperam e sobre a sociedade portuguesa, que desejam no caminho da mudança. Contudo, se a escrita é a margem de liberdade possível, então o discurso dos periódicos pós-Revolução, que a encerra e descobre, contém e refere o esforço dos jornalistas circunscritos à representação do ideário que defendem, mas uma circunscrição que não existe encerrada sobre si, antes se afirma para além da última margem de liberdade possível, em que o excesso contido e a censura não conseguem impedir, no próprio acto da feitura, que livremente se materialize o seu imaginário e a sua justiça de afirmação da razão, da verdade, da virtude, do conhecimento e da libertação.

O interesse prático da razão pertence à própria razão. No interesse pela independência do Eu, a razão realiza-se na mesma medida em que o acto da razão, como tal, produz a liberdade. A auto-reflexão é ao mesmo tempo intuição e emancipação, compreensão e libertação da dependência dogmática[16].

 

Reflectindo esta consciência e estado de espírito, em 1975, o director do Jornal Novo, no seu primeiro editorial, escrevia que “informar não é bloquear, é esclarecer (…); o rigor, a verdade, a crítica são a própria condição do avanço seguro e definitivo da revolução democrática”[17]. Também ao transcrever um texto com o título “Diálogos com o meu censor” deixa ver o verdadeiro carácter que assistia a uma prática castradora, independentemente da capacidade de decisão, inteligência ou “interminável descrição das variantes caracteriológicas”[18] do censor. A existência de censura é nesta local inviamente repudiada, mas ao mesmo tempo ridicularizada, por via dos diálogos que os autores mantinham com os censores.

“Olhar para trás”, em 1975, pode significar um acto profiláctico contra fenómenos de auto-censura, a que muitas consciências não conseguem furtar-se nestes anos politicamente quentes, depois de 1974, ou a incontestável oposição a ocorrências que com a liberdade de imprensa possam colidir, como pode depreender-se de um texto alusivo ao impedimento de publicação do vespertino Republica: “Não podemos deixar de manifestar a nossa estranheza ao verificar que um homem como Raul Rego, lutador de sempre contra o fascismo e contra as limitações à liberdade de expressão, seja agora impedido de publicar o jornal (…). Este é, aliás, o caso mais flagrante em que, neste país, uma redacção de jornal se vê impedida de decidir dos problemas que, à luz da lei de imprensa, só a ela dizem respeito”[19].

De certo modo, inicia-se aqui um processo que irá colocar um fim à publicação do República, um acontecimento que o Jornal Novo assinalará com mágoa e que conduz o seu director a colocar, em “Carta Aberta”, questões ao responsável político/militar pela comunicação[20]: “Que é o caso República? (…). É o zelo da imprensa partidária? O público tem ou não tem o direito de ter uma imprensa livre? (…). E que significa isto tudo no quadro de uma política de informação que não há?”[21].

Igualmente, a mesa redonda promovida pelo periódico não deixa dúvidas quanto ao principal motivo do termo da publicação: a liberdade de expressão estava em causa e os jornalistas eram impedidos de escrever livremente[22]. Aliás, o República, a cujo director o PSOE, entre outros, dará a sua solidariedade[23], fará história, queira-se ou não, antes e depois da Revolução de Abril, enquanto emblema da luta pela liberdade de imprensa[24], independentemente das forças político/partidárias responsáveis pela “selagem” do periódico.

Nesta conjuntura, tipicamente de mutação, um ano após o 25 de Abril, o consenso era incontestável em torno da liberdade de imprensa. Também a Assembleia-Geral do Sindicato dos Jornalistas vem reafirmar e reforçar, no contexto de discussão do seu estatuto, que o “Sindicato deve prosseguir a defesa da independência e da liberdade de imprensa, bem como dos direitos e imunidades dos jornalistas”[25].

Aparentemente, não há fenómenos de “ponciopilatismo”, ninguém se exime às responsabilidades, porque todos têm uma opinião a dar, uma contribuição a propor. Os exemplos são vários, poderíamos recorrer a várias transcrições de carácter idêntico.

Todavia, em 1979, um artigo de opinião, publicado em o Portugal Hoje, lança um alerta ao recolocar a discussão acerca do tema, sob um ponto de vista panorâmico, obviamente mais aprofundado A três colunas, o texto levanta questões essenciais que deixam ver o estado da liberdade de expressão, o que legitima uma alongada citação:

 

“Muito se tem escrito e dito no nosso país, nos últimos quatro anos, sobre liberdade de informação em Portugal. A Constituição consagra um modelo pluralista da informação, teoricamente semelhante ao praticado nos países da Europa Ocidental (…). Do ponto de vista formal, estaríamos perante um modelo que garantiria a liberdade de informação. Para aqueles para quem esse conceito se limita à liberdade de criar jornais, tudo estará certo (…). Se aprofundássemos um pouco mais esta questão (…), diríamos que a liberdade de informação, defendida por esses sectores, é, pelo menos original. Todos sabemos que para fundar jornais, estações de rádio ou de televisão são necessários avultados meios financeiros (…). Daí que a imprensa privada esteja, com algumas excepções, na sua grande maioria nas mãos de pessoas ou grupos economicamente poderosos (…), que procuram através da proliferação de jornais exercer na opinião pública uma influência que de outro modo não teriam. No nosso país, o problema é especialmente grave, na medida em que o cidadão comum não possui mecanismos de autodefesa contra as campanhas de intoxicação desenvolvidas por grande parte dessa imprensa (…). A informação nacionalizada surge então como única, teoricamente capaz de desempenhar as funções de serviço público, que toda a informação deve cumprir, livre de pressões de todos os poderes. Mas aí mesmo as coisas não se têm apresentado lineares no nosso país. A comunicação social nacionalizada foi, bastas vezes, sujeita a pressões por parte dos governos (…). Caiu-se assim num círculo infernal de onde é difícil sair (…). Fácil é extrair daqui algumas conclusões. Falar de liberdade de informação nestas condições é de facto um puro exercício de retórica”[26].

 

Ou seja, em 1979, no lastro da Revolução, o artigo reflecte as mesmas teses que, passados cerca de vinte e cinco anos se colocam, independentemente dos valores que assistiam a publicação de periódicos logo após o 25 de Abril, sobre a liberdade de imprensa. Ao colocar a ênfase no controlo da informação, quer pelo poder económico e financeiro, quer pelo poder político, a autora deixa ver o ciclo infernal de um conceito, simbolicamente pleno dos mesmos valores que os liberais de há dois séculos defendiam, completamente esvaziado de sentido, ainda que, do ponto de vista formal, o invólucro surja como inatacável. Subvertido pelas direcções dos órgãos de comunicação, dependente do poder político e económico, parece não ter mais sentido falar da universalidade prática e da prática universal do conceito de liberdade de imprensa, pelo menos como os inventores da liberdade o concebiam.

 

Como é sabido, não é uma banalidade encontrarmos nos periódicos nos dias de hoje este tipo de conteúdos e, muito menos, o vigor dos antepassados longínquos ou próximos. Aparentemente, passou-se do “grito” ao “murmúrio” ensurdecedor. Significa esta quase-ausência que a liberdade de imprensa, por um “golpe de mágica”, é algo perfeitamente assegurado, que não sofre entorses nem coacções de qualquer tipo na sociedade portuguesa? Ou, inversamente, que os jornalistas não desejam correr o risco de produzir afirmações semelhantes que entrem em rota de colisão com as administrações e direcções dos periódicos onde, enquanto força de trabalho da escrita, exercem a sua actividade? Será possível que estas personagens, que denodadamente combateram pela liberdade de imprensa, se deixem depois envolver em casos menos transparentes, em rota de colisão com os princípios que defendem? Perante os “amargos de boca” causados a outros seus companheiros de percurso, que recusaram processos menos claros que pudessem pôr em causa os valores que professam, com as consequências que na actualidade se conhecem, ocorre a inevitável pergunta: existirá autêntica liberdade de imprensa, com todos os atributos, direitos e deveres, que a definem e a explicam? A resposta, a meu ver, conduz à ilação da autora do artigo, acima citado, quando assinala a vacuidade retórica dos que peroram acerca da liberdade de informação, isto é, os que preopinam sobre uma operação de cosmética ciclicamente renovada.

 

Tem toda a acuidade, portanto, interrogarmo-nos sobre estas questões. E, se não temos resposta, talvez possamos ajudar a encarar a liberdade de imprensa nos media como algo fundamental para os nossos dias, que nos obriga a reflectir sobre esta questão capital que vai direita ao coração das democracias actuais.

Numa sociedade dita da “comunicação”, a comunicação tende a tornar-se a principal causa e a única solução de todos os problemas sociais. A meu ver, a comunicação não deve ser olhada como a explicação primeira nem a solução privilegiada para os problemas actuais. Com efeito, antes de mais, nós não vivemos numa sociedade da “comunicação”, da “informação” ou “em rede”. Nós vivemos numa sociedade do consumo em que as indústrias da comunicação têm um lugar crescente e em que, simultaneamente, os problemas da exclusão e de reencontros entre culturas diferentes[27] se colocam com grande agudeza e o que daí advém no quadro do controlo da informação.

 

Neste sentido, pode perguntar-se se a ocultação da verdade não será um acto censuralizante, manipulador ou as duas coisas?

Veja-se, a este propósito, a tentativa de construção de um espaço comum de comunicação na Europa e a informação que nos chega de Bruxelas e perguntar se é do interesse geral ou do interesse das elites políticas, que tomam o pequeno-almoço em Lisboa, almoçam em Madrid e jantam em Copenhaga, a informação que é fornecida nos briefings aos jornalistas. Terá este procedimento a ver com a autêntica liberdade de imprensa?

 

Se o debate sobre a liberdade de imprensa nos últimos vinte e cinco ou trinta anos desaparece, em parte, das páginas dos periódicos ou do conjunto dos media, na medida em que ela existe de jure, pergunta-se se existirá de facto? Será que o pudor culpado da auto-censura ou da censura informal, que vem do topo, impede de colocar à luz do dia os tortuosos e ínvios caminhos da “censuralidade”[28], para a distinguirmos da censura de tipo clássico, a que tem a sua génese na definição do papa Alexandre VI[29] e marca o impresso desde Gutenberg até às revoluções liberais dos séculos XVIII e XIX?

 

Seja-me permitida uma breve reflexão. A disfunção dos media é, a meu ver, a saponária disponível que lava e mascara o acto perverso da “censuralidade” que, de facto, submerge as instituições de comunicação. A “censuralidade” tem campo aberto no espaço dos media, em que as visões são instrumentais, quando deviam ser estratégicas, particularmente quando aí se fez entrar a tecnologia. A auto-censura navega livremente no espaço das redacções, fruto da reificação da notícia e do seu valor. O ruído da “censuralidade” penetra a mente e a alma dos assalariados da redacção, particularmente dependentes da necessidade acéfala de estar em comunhão com quem os dirige.

 

A “censuralidade”, que penetra o íntimo do processo operatório que impede a liberdade de expressão, tem no âmago o carácter monológico do discurso, eliminando o carácter dialógico da comunicação[30], mas como um processo que virtualmente aceita esse dialogismo, escudado no acolhimento da pluralidade, sem que isso obstaculize a exigência do desejo censuralizante. O processo censuralizante selecciona e não absolutiza, como um processo grosseiro, informe, infame, infamante e abastardado que olha mas não vê.

A razão censória é diferente da razão censuralizante. A primeira actua no corpo do impresso, in actu, é aberta; a segunda mutila e castra o pensamento. A primeira torna-se visível, a segunda foge à visibilidade. Pode dizer-se que a primeira é inócua, quando comparada com o carácter pestilento e endémico da segunda. A primeira dá a possibilidade de fuga para a clandestinidade, a segunda é uma atitude desviante contra a autenticidade da escrita, um voluntário ou imposto interdito mental. A primeira é terrorismo intelectual de Estado, a segunda é violação consentida e selectiva. A primeira explode, a segunda implode. A primeira sujeita o indivíduo incondicionado, a segunda é uma característica do sujeito condicionado. A primeira é uma censura sem controlo, a segunda é “esclarecida”. Pode dizer-se que a “censuralidade”, qualquer que seja a forma, é uma componente de toda a cultura dominante.

 

Assim, a “censuralidade”, olhada como a imposição monológica do discurso, eliminando o dialogismo da comunicação, sem excluir a encenação abstracta da pluralidade, que traça supostas linhas de fuga pelo trabalhar de fendas virtuais, deve, em função do espaço público, ser vista em pelo menos duas vertentes: 1) a dos textos recusados, rasurados, suprimidos e silenciados; 2) a da função dos “censuradores”, sem desejar postular-lhes a "bondade" ou a "maldade", na divulgação de obras duvidosas, polémicas, ou mesmo "de mau gosto" para os poderes dominantes, desde que esse acto preencha os objectivos desejados.

 

Por outras palavras, a refeudalização do indivíduo, a sua reificação, mascara as relações sociais entre os homens e as realidades espirituais e psíquicas fornecendo-lhe o aspecto de atributos naturais de coisas ou de leis naturais, vale dizer, as relações de troca tomam a forma de um atributo de coisas inertes: o preço. A absoluta transmutação do sujeito em objecto, de actor em, apenas, espectador de um drama que o (des) constrói, faz do indivíduo pós-moderno uma mercadoria, num processo continuamente renovado e no qual os únicos elementos verdadeiramente activos são objectos insensíveis. Como afirma Goldmann, “Loin d’être une simple vue de l’esprit cette distorsion est une réalité psychique profonde qui s’exprime jusque dans le langage”[31]

 

A fenda aberta entre a modernidade iluminista e pós-iluminista e a instantaneidade tecnológica da contemporaneidade, entre o advento do indivíduo social moderno e o seu epígono da pós-modernidade, deixa ver a fractura entre, por um lado, a auto-enunciação do indivíduo social moderno e a sua necessidade de legitimação por via da imprensa (a notícia que legitima), e, por outro, a crise que afecta o sujeito social actual por via do confronto da sua liberdade individual com a crescente homogeneização dos media contemporâneos e as neo-escolásticas que forram as novas clericaturas do “futuro”.

De indivíduo social reflexivo, que tinha deixado de ser objecto, ao transmudar-se de súbdito em cidadão, que exibe as emoções, uma aquisição principal, herança de um dado adquirido na modernidade, ou seja, a explosão do sujeito que busca soluções políticas, o indivíduo auto-confronta-se, hoje, como objecto, com o simulacro de uma globalidade que o ultrapassa e não compreende. O sujeito social da era electrónica torna-se no centro ubiquisto da experiência que o atravessa. Ele não está mais no espaço, está em todo ele, não é ele que se engana é o caminho que muda. Não é mais o espaço uniforme e exclusivo de Newton, é o espaço acústico, cujo centro está por todo o lado e a circunferência em lado nenhum. A utopia transformou-se em distopia, a utopia luminosa da mundialização aculturada converteu-se em globalização de sentido único.

 

Globalmente e paradoxalmente existe hoje provavelmente um afastamento superior entre o mundo científico e técnico e o português médio, condicionado pelos media, que não existia entre o universitário coimbrão e o trabalhador agrícola de há um ou dois séculos. É necessário desconfiar das evidências aparentes. O gozo da liberdade pode ser um vão paradoxo e tomar sentidos diversos. O indivíduo mais condicionado é também aquele que se sente mais livre. Os amos da sociedade de consumo e da cultura de massa assimilam perfeitamente este princípio, tal como o big brother (a liberdade é a escravatura, a ignorância a força) em 1984, de Orwell, que bem poderia titular-se 2004. A cultura de massa contemporânea, fornecendo aos estratos populares e médios, seguindo o velho lema, panem et circences e encorajando a satisfação dos seus desejos, mantém o mito da liberdade que não é senão a liberdade de produzir aquilo porque se é condicionado[32]. Instiga assim, por um mecanismo perverso, aquilo que chamo de “censuralidade”, produzindo um caldo de cultura que obriga as pessoas a desviar-se de um sentido autêntico de vida e deixando que este fenómeno se multiplique exponencialmente para que as massas melhor possam ignorar o que se passa em seu redor, em nome do desejo de satisfação das suas necessidades superficiais, fictícias, transformadas em necessidades fundamentais.

Processo temível e insidioso, a “censuralidade” exerce a pressão dos modelos intelectuais. Dissimulado atrás de uma fachada democrática, a censura aberta dos poderes políticos e religiosos cedeu o passo a uma “censuralidade” dos grupos de pressão e dos interesses económicos. E pode perguntar-se quantos autos-de-fé foram executados contra textos e livros lançando-os para a fossa comum da indiferença. Mas, uma outra “censuralidade” mais perniciosa, que nem sequer pressupõe o julgamento dos autos-de-fé, a pior, é o silêncio que mata irremediavelmente. Os agentes desta execução: os media e as escolhas dos media.

 

Mas, para finalizar esta comunicação, gostaria de chamar a atenção para o que se passa actualmente em Portugal, onde, quando menos se espera, o problema da liberdade de informação, no quadro das preocupações éticas, dos direitos e dos deveres, surge com novos e inesperados desenvolvimentos. Basta para isso consultar a Alta Autoridade Para A Comunicação Social (AACS) on line e trazer à colação um interminável número de casos apreciados sobre a violação à liberdade de informação[33] ou confrontar os casos mais recentes que saíram do âmbito das redacções, entre eles o caso das cassetes com gravações de conversas sobre o “caso Casa Pia”, efectuadas por um jornalista do Correio da Manhã[34].

Neste contexto, tem ainda aqui lugar, não uma acção de “censuralidade”, mas a referência a um acto de censura aberta, como o que ocorreu no jornal Público nos primeiros dias de Junho deste ano. Passo a citar: “O conselho de redacção (CR) do Público demitiu-se ontem em bloco, após o director do jornal[35], se ter recusado a reunir-se com aquele órgão. Na origem desta tomada de posição está uma notícia do jornalista[36] (…), relativa à situação fiscal do [ministro das Finanças[37]]. A direcção retirou a notícia da edição de sexta-feira do jornal, o que levou à demissão da editora[38] (…). A jornalista não reconsiderou essa decisão (…). O CR acusou a direcção de ter praticado um acto de censura e reafirmou, num comunicado de ontem, que a notícia deve ser publicada (…). [O director] recusou-se a receber, ontem, o CR, alegando que este tomou posição sobre o caso sem ouvir o director, que é membro, por inerência, do CR (…). As eleições para o órgão representativo foram convocadas para o dia 16”[39].

 

Se, como pode deduzir-se, a castração do carácter dialógico da comunicação e a monologia do discurso são o indício seguro do controlo da informação por parte dos poderes dominantes que pretendem fornecer e amplificar, apenas e só, a informação benéfica de que dispõem, também a procura da novidade que esclareça os cidadãos é a marca essencial de um espaço público autenticamente democrático e de quem, para além da emoção, usa publicamente a razão e frui da liberdade de recepção.

Existe nesta atitude do conselho de redacção do periódico uma parte de utopia, mas também um apelo salutar a um olhar crítico sobre o mundo. Com efeito, o requisitório universal contra o capitalismo no tempo da globalização, o neo-revisionismo do endeusamento do mercado[40] e a desistência da crítica ao capitalismo, sobretudo nesta perversa fase financeiro-especulativa, denuncia com força o processo de poder absoluto estabelecido pelo capital que soube fazer da liberdade individual uma prática inigualável de angústia. Ao mesmo tempo, esta supremacia conduziu à destruição simultânea da democracia, da política e do pensamento, que, na liberdade que o sistema nos outorga, nos leva a um esgotamento de si sem qualquer saída.

Perante este panorama, incumbe a todos nós contribuir para a inversão deste ardiloso processo, que nos deseja tristes e isolados. Para isso há que fecundar a utopia, dar voz aos sem voz, desconstruir a ideologia de mercado (na sua interpretação perversa) e rejeitar a retórica do inelutável, como parece ter sido o pensamento que presidiu ao apelo, entre outros, à consciencialização e à comemoração feito pela Associação dos Repórteres sem Fronteiras (RSF)[41], ao promover uma cibermanifestação pela Liberdade de Imprensa no Mundo, assinalando assim na Internet o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa (dia 3 de Maio).

Como afirma Jean Delumeau “Le combat pour la liberté d’expression ne sera jamais achevé. Et dans nos pays cette liberté peut être remise en cause, dans les faits, par ceux qui s’en croient les véhéments défenseurs”[42].***



[1] “É a primeira Lei de um Povo, que deseja ser livre, e a primeira garantia dos meus bens, da minha pessoa e da minha indústria. Sem liberdade de Imprensa longe de esperarmos protecção devemos esperar espoliação. Esta lei salutar até dá um carácter e urna energia democrática aos Governos que o não são nas suas formas” (MOURA, José Joaquim Ferreira de – Diccionario d'Algibeira Filosofico, Politico Moral que dá de Certas Palavras a sua Noção Verdadeira. Madrid: Officina Junta Apostolica, s.d., p. 31).

[2] “[A] liberdade de imprensa, junta com as luzes do tempo, é uma vedeta, que metida na sua atalaia observa sempre alerta as disposições e movimentos do inimigo, dá rebate a tempo e aconselha quanto se deva fazer por lhe atalhar as medidas ou frustrar-lhe os desígnios encobertos. Sempre a liberdade de imprensa é companheira da liberdade constitucional, uma não pode ir sem a outra, mas, se pudesse dar-se o caso em que a 1.ª existisse sem a 2.ª, em breve se veria criado por aquela um espírito público de liberdade com um fundamento constitucional” (Portuguez (O); ou, Mercurio Politico, Commercial, e Literario. Vol. IV, N.° XXII (Fevereiro ─ 1816). Londres: Impresso por W. Lewis, 1815, p. 284).

[3] Cfr., e.g. Portuguez (O); ou, Mercurio Politico, Commercial, e Literario. Londres: Impresso por W. Lewis; Impresso por T. C. Hansard, na Officina Portugueza; Impresso por L. Thompson, 1814-1826.

[4]A liberdade de imprensa (…) é tão natural direito como a liberdade de falar, modificado pelo aparato da escritura e da imprensa, portanto bem se vê que o governo, às mãos dos escritores pondo as algemas da censura prévia, também à língua e boca poria um freio e mordaça se pudera. Por tal censura (…), se põe a mira na ignorância absoluta do povo acerca da economia interior e do estado público, na dispersão da opinião pública, na flutuação do espírito do povo, na inconsistência e instabilidade do carácter nacional” (Idem, Vol. II, N.° XII (Abril815), pp. 493-494).

“As ciências aplicadas a outros objectos da economia politica, vão esclarecer todos os governos, fazer aproveitar todos os recursos da força pública e lavrar de modo mais proveitoso todas as minas da riqueza nacional. A mesma generalidade das luzes, na forma que se vêem espalhadas por todo o mundo, obriga os governos (...) a que não percam um dos recursos nacionais (...). Estas verdades singelas, gravadas pela natureza no coração de todos os povos, não têm ainda podido trepar os degraus do trono de Espanha e Portugal, de onde os mandões se arredam cuidadosos (...). Porém, elas são plantas medicinais e elas possuem a virtude de curar os achaques mortais de que adoecemos, elas dão-se bem em todos os países, aonde as querem cultivar; é necessário plantá-las e fazer uso delas, o tempo insta, a doença há tomado um carácter perigoso, ameaça morte infalível e não sobre dilações” (Idem, Vol. II, N.° X (Fevereiro1815), pp. 340-342).

[5] Diário de Lisboa. Nº 18441, Lisboa (27 de Abril – 1974), p. 6.

[6] Diário de Lisboa. Nº 18442, Lisboa (28 de Abril – 1974), p. 2

[7] Diário de Lisboa. Nº 18445, Lisboa (2 de Maio – 1974), p. 24.

[8] Diário de Lisboa. Nº 18446, Lisboa (3 de Maio – 1974), p. 1.

[9] Diário de Lisboa. Nº 18446, Lisboa (3 de Maio – 1974), p. 1.

[10] Diário de Lisboa. Nº 18453, Lisboa (10 de Maio – 1974), p. 12.

[11] República. Nº 15430, Lisboa (7 de Maio – 1974), p. 3.

[12] César Henrique Moreira Baptista, secretário de Estado da Informação e Turismo (1968-1973) e último ministro do Interior (1973-1974) do regime salazarista/caetanista.

[13] Jorge Correia Jesuíno, militar da Armada, ministro da Comunicação Social, em 1975, hoje professor (Doutor em Sociologia do Trabalho) no ISCTE – Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa.

[14] Luta (A). Nº 1, Lisboa (25 de Agosto – 1975), p. 2.

[15] Luta (A). Nº 1, Lisboa (25 de Agosto – 1975), pp. 1 e 16.

[16] Cfr. HABERMAS, Jürgen – Connaissance et Intérêt. Paris: Gallimard, 1976, p. 241.

[17] Jornal Novo. Nº 1, Lisboa (17 de Abril – 1975), p. 1.

[18] MESQUITA, Mário in Jornal Novo. Nº 2, Lisboa (18 de Abril – 1975), p. 3.

[19] Jornal Novo. Nº 13, Lisboa (3 de Maio – 1975), p. 2.

[20] Cfr supra nota 13.

[21] Jornal Novo. Nº 27, Lisboa (20 de Maio – 1975), p. 1.

[22] Cfr. Jornal Novo. Nº 29, Lisboa (22 de Maio – 1975), pp. 9-12.

[23] Cfr Jornal Novo. Nº 31, Lisboa (24 de Maio – 1975), p. 10.

[24] Como a prová-lo, no primeiro dia da II República, o República increpava a censura com a denúncia de “Uma ‘terceira página’ que a censura proibiu”: “Não caberiam nos jornais de um mês, sequer nos de um ano inteiro, todos os artigos ou notícias que a censura, e mais recentemente o exame prévio, nos impediu de publicar. O público estava, de um modo geral, informado das limitações que diariamente nos eram impostas. Mas, em boa verdade, era-lhe impossível avaliar com exactidão até que extremos ia a acção dos serviços encarregados de amordaçar a imprensa, cuja prepotência se fazia sentir, indiscriminadamente, sob os mais variados assuntos, inclusive aqueles acerca dos quais era totalmente imprevisível a sua actuação” (República. Nº 15421, Lisboa (25 de Abril – 1974), p. 3). Mais adiante, no caminhar da Revolução, dá a conhecer, em “O último documento”, o ofício da Comissão de Exame Prévio, com data de 24 de Abril de 1974, que transcreve o documento censurado e solicita ao director do República a “informação que tiver por conveniente acerca do não cumprimento do corte ordenado por esta Comissão do artigo ‘TRIBUNAL PLENÁRIO’, publicado (…) no dia 18 do corrente mês…” (República. Nº 15422, Lisboa (26 de Abril – 1974), p. 15); por outro lado, para que a memória da repressão salazarista não se apague, torna público, entre muitos outros, as charges que a censura proibiu durante a última “campanha eleitoral”, realizada em Outubro de 1973 (República. Suplemento fim de semana. Nº 15428, Lisboa (4 de Maio – 1974), p. V).

[25] Jornal Novo. Nº 23, Lisboa (15 de Maio – 1975), p. 16.

[26] SERRANO, Maria Estrela in Portugal Hoje. Nº 21, Lisboa (25 de Outubro – 1979), p. 5.

[27] Cfr. DACHEUX, Éric – L’impossible défi. La politique de la communication de l’Union européenne. Paris: CNRS Éditions, 2004, p. 110.

[28] Todo o processo que, de forma dissimulada, impede (mesmo admitindo formalmente o carácter dialógico da comunicação), por via de um maquinismo abstracto de intervenção e de linhas de penetração da discursividade, através de parciais fissuras mutilantes da diversidade discursiva, a circulação de informação e, ao mesmo tempo, a comunicação genuína. Podemos falar num processo psico-censuralizante, em que quem impõe a “censuralidade” não tem necessidade de tomar a iniciativa, de objectivamente praticá-la, uma vez que o “instrumento” dessa prática está na sua dependência.

[29] O papa Alexandre VI, que foi um dos seus impulsionadores, deixou um pequeno manuscrito intitulado Guia do perfeito censor, onde afirma que “1) A censura é a arte de descobrir nas obras literárias ou dramáticas, as intenções maldosas; 2) O ideal é aí descobrir as intenções, mesmo quando o escritor não as tenha tido; 3) Um censor capaz deve, à primeira vista, descobrir na palavra oficleíde uma injúria à moral pública; 4) A divisa do censor é: 'Cortemos, cortemos, nunca é demais'; 5) O censor deve estar persuadido que cada palavra de uma obra contém uma pérfida alusão. Quando a descobrir, ele cortará a frase. Quando a não descobrir, cortá-la-á também, levando em conta que as alusões melhor dissimuladas são as mais perigosas” (GOBLOT, L. – Apologie de la censure. Rodez: Subvervie, 1960, apud GABRIEL-ROBINET, Louis – La Censure. Paris: Hachette, 1965 in BROCHIER, Jean-Jacques – "Les arguments contre la censure". Communications. (Nº 9 - 1967), Paris: Seuil, 1967, p. 64).

[30] Cfr. MIRANDA, José Bragança de – "Elementos para uma teoria da censura: censurância, argumentação e conflito". Revista de Comunicação e Linguagens. Nº 1 (Março - 1985), Lisboa: Centro de Estudos de Comunicação e Linguagens; Afrontamento, 1985, p. 50.

[31] GOLDMANN, Lucien – Recherches dialectiques. Paris : Gallimard, 1958, p. 79.

[32] Cfr. MINOIS, Georges – Censure et culture sous l’Ancien Régime. Paris: Fayard, 1995, p. 281.

[33] Cfr. http://www.aacs.pt Entre duzentas e setenta duas “Deliberações e Comunicados”, alguns exemplos:

-Deliberação sobre queixa da “Associação para a Defesa do Património, Ambiente E Direitos Humanos – Olho Vivo”, contra o jornal Região do Minho (aprovada na reunião plenária de 7 de Setembro de 1999);

-Deliberação relativa às queixas apresentadas contra a RTP, a SIC e a TVI, por alegada transmissão de imagens chocantes de extrema violência em noticiários com violação do artigo 21º da lei da televisão (aprovada em reunião plenária de 17 de Setembro de 2000);

-Parecer pedido pela Direcção-Geral do Comércio e da Concorrência acerca da concentração PT/Lusomundo (aprovado na reunião plenária de 5 de Janeiro de 2001);

-Deliberação sobre queixa de Rafael José Antunes Marques de Sá contra a TVI (aprovada em reunião plenária de 4 de Julho de 2001);

-Deliberação sobre denúncia apresentada por Frederico Duarte Carvalho contra o jornal Expresso por alegado abuso de liberdade de imprensa (aprovada em reunião plenária de 19 de Novembro de 2003);

-Deliberação sobre queixa do Notícias de Leiria contra o ministro da Administração Interna;

-Deliberação sobre recurso de Eduardo Ferro Rodrigues contra o jornal Correio da Manhã (Aprovada em reunião plenária de 10 de Dezembro de 2003);

-Deliberação sobre queixa da SIC contra o presidente do Sport Lisboa e Benfica e a Casa do Benfica em Vila Real de Santo António (Aprovada em reunião plenária de 7 de Julho de 2004);

-Deliberação sobre recurso de José Martins Júnior contra o Diário de Notícias do Funchal (Aprovada em reunião plenária de 7 de Janeiro de 2004);

-Deliberação sobre queixa de Martine Rainho contra o Ministério da Segurança Social e do Trabalho (Aprovada em reunião plenária de 6 de Abril de 2004);

-Deliberação sobre apreciação da legalidade da campanha de promoção visando o 2° aniversario da posse do governo (Aprovada em reunião plenária de 30 de Junho de 2004).

[34] Octávio Lopes. As gravações foram realizadas, supostamente, sem conhecimento das fontes. Das cassetes gravadas, depois furtadas e, em seguida, presumivelmente destruídas, o semanário Independente publicou a transcrição das conversas sem autorização do jornalista Octávio Lopes

[35] José Manuel Fernandes (a mesma pessoa que “verteu lágrimas” quando os Estados Unidos da América invadiram o Iraque, estabelecendo uma descabida analogia entre a Revolução portuguesa de 25 de Abril de 1974 e uma espécie de “25 de Abril à iraquiana” proporcionado pela manu militari americana; a mesma pessoa que, assumindo o papel de procurador não mandatado, afirmou terem sido mal interpretadas as palavras do conselheiro de George W. Bush, Paul Wolfowitz, sobre os motivos obscuros da invasão do Iraque).

[36] João Ramos de Almeida.

[37] Manuela Ferreira Leite.

[38] Ana Sá Lopes.

[39] Diário de Notícias. Lisboa (7 de Junho – 2004), ed. on line.

[40] Leia-se, a este propósito, a famosa e paradigmática frase do ultra-reaganista, presidente do grupo “Americans for Tax Relief”e conselheiro de George W. Bush, NORQUIST, Grover: “O nosso objectivo é diminuir o Estado até ao tamanho de um bebé, para que o possamos afogar na banheira” (apud RIBEIRO, Pedro in Público. Nº 5273, Lisboa (30 de Agosto – 2004), p. 5). Esta visão do mundo é alimentada por outros lobies ultra-reaganistas, como o “Club for Growth”. Os ultra-reaganistas têm uma fé total nos mercados e defendem a redução, ao mínimo, do papel do Estado. São a favor de uma abolição tendencial dos impostos e de todos os programas estatais como a Segurança Social.

[41] Com o mesmo objectivo, os Repórteres Sem Fronteiras (RSF) estão a boicotar a realização dos Jogos Olímpicos de 2008, em Pequim, lançando um site na Internet para chamar a atenção do Comité Olímpico Internacional para a falta de liberdade de expressão existente na China. (cfr. Reporters sans frontières ou Reporteros sin fronteras 5, rue Geoffroy Marie - 75009 Paris - France. Tel. (33) 1 44 83 84 84. E-mail: rsf@rsf.org Site: www.rsf.fr ). Concomitantemente, também a Human Rights Watch (HRW), organização norte-americana que luta pela defesa dos direitos humanos, alerta, entre outros temas inerentes à defesa da liberdade, para o facto do Estado chinês só permitir a liberdade de expressão se isso não colocar em questão o poder instituído (cfr. Site: http://www.hrw.org Email: feedback@hrw.org).

[42] DELUMEAU, Jean p. 284. L’Histoire. Nº 123. Paris: Société d’Éditions Scientifiques, 1989, p.7.